Acho que o quintal onde a gente brincou é maior que a
cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o
tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas.
Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são
sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da
intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa.
Aquilo que a negra Pombada, remanescente dos escravos do Recife, nos contava.
Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que
os holandeses, na fuga apressada do Brasil, faziam nos seus quintais para
esconder suas moedas de ouro, dentro de grandes baús de couro. Os baús ficavam
cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a pensar em achadouros
da infância. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá
estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé
do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou
hoje um caçador de achadouros de infância. (...)Manoel de Barros (2003a)
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